Sobre mim, apenas o leve. Embaixo, o resto.

Este dragão preso, em fúria, tenta de qualquer modo romper as grades da prisão em que foi, injustamente, colocado. Cuspindo fogo freneticamente mas sem conseguir derreter o ferro maciço, ele olha adiante pensando em maneiras ilícitas de sair deste poço profundo. 

   Já não se lembra de como é o verde ou o azul. Seus olhos tristes, pálidos pela escuridão, não conseguem mais erguer-se. Só o que se vê é um animal selvagem e cheio de força e vigor preso numa vida que não o contém. Tudo o que se ouve são gemidos agudos de dor. O dragão borbulha sonhos, súplicas.

   Aquela luz que outrora achou ser devaneio, no entanto, parece aproximar-se. Pensa estar louco. Ignora o fato de que o brilho pode trazer-lhe paz, pois acredita que tamanha escuridão não pode ser vencida apenas com fé. Desacredita em qualquer pálida luz que seus olhos cor de mel possam estar mirando. Desacredita até que exista ainda um sol lá fora. O dragão agarra-se a uma única certeza, o infinito negro que há em si.

   Durante muitos dias viu aproximar-se essa pálida luz. Observou-a com cautela, pois a insanidade já o habitara uma vez, era sua velha conhecida, e tinha por ela respeito. Acreditando em sua loucura, desistiu de tentar. Parado, calado e resoluto, apenas observa. Diaapós dia, a luz brilhante se aproxima sem que possa compreender o que é ou mesmo de onde vem. Não imagina-se sem as grades de seu calabouço, não acredita nos pensamentos coloridos que lhe vêm à mente a cada vez em que pensa em sua insanidade. 

   Há anos não há outro ser vivo por perto. Ou seriam séculos? O tempo para ele já não existe, é o próprio tempo.

   Neste dia, cansado de tentar derreter as grades maciças e cansado de apenas observar, adormeceu profundamente, como nunca havia feito. Dormiu por dias, noites, invernos, verões. Desistiu de sua própria existência em seu sono interno. Fechou-se a qualquer possibilidade de salvação. Preparando-se em seus sonhos lúcidos para a morte solitária que o esperava, de súbito, despertou. À sua frente, um grande tigre. As grades já não o prendem e o animal o observa atentamente.

   A luz, que se havia aproximado tão lentamente, agora é nítida. O sol brilha sobre si outra vez. 

   ”Vejo borboletas brincando e flores coloridas crescendo a minha volta. Tão coloridas que mal posso lembrar-me daqueles tons. Ouço pássaros alimentando seus filhotes, ouço o vento assobiar melodias tão harmônicas como jamais pensara.”

   Agora, salvo de sua escuridão, o grande dragão pode compreender que o sol estava ali todo o tempo, porém, o torpor do sono lhe trouxe devaneios de prisão.

Observar os próprios pés imersos na água límpida, brincando sob a areia (como se fossem um organismo distinto e totalmente dissociado de você).

Não sobre, pois assim é você e o chão, mas sob, com a areia entrando em seus dedos e lhe fazendo senti-la grão a grão,

assim você é o chão.

E como o mar e o céu, infinitos que se encontram no infinito, nada resta após a fusão entre homem-cérebro e planeta. Nada além de um homem-planta.

Fotossintetize-se.

Suspensa num pêndulo de aço. Colorindo com tintas policromáticas devaneios mornos. 

Uma planta.

Com explosões de violetas, verdes, amarelos e azuis

traço, em risco torto, passos cambaleantes

desequilibrados em matéria, porém firmes em alma.


Antes, a boa chuva molhando os lábios rubros,

agora, a paleta inspiradora cobre o céu e toca o mar num horizonte não visto.


A cascata de cores abraça um abraço intenso

e eclodem, vibrantes e multicolores, trépidos arrepios.

Instinto

que vira rito.

Faminto,

o mito 

é finito.

Chilra um vento inaudito

ao suar a carne que habito,

o ventre vela ossos em óbito

enquanto, em derredor, gravito.

Flébil atrito

desmistifica o esquisito,

e o cógnito 

sorve o grito.

Amanhecer etílico (visões de olhos verde musgo)

É um jogo de azuis e rosas entrecortados por amarelos cintilantes, em que o rosa segue desfazendo-se e sutilmente tornando-se homogeneamente azul celeste, quase translúcido.

Nuvens de base terracota alvejadas por um cinza soberbo e manchadas com o brilho do sol.

Agora, o rosa se desfaz lentamente, consumido pelo laranja quase ouro que mancha de brilho nuvens ralas.

Atrás da árvore ele surge, imponente, tingindo de ouro o rosa desbotado e o azul, gasto da noite que finda. Soberbo, consciente de sua magnitude, avança pelo azul cobalto quebrando as ondas celestes.

O amarelo ouro e o laranja cintilante entram delicadamente no rosa, porém, simultânea e dicotomicamente, de maneira rápida e precisa, esmaecendo qualquer sombra de vermelho.

Neste momento, apenas a luminosidade impera. 

(des)encontros

Até quando, desencontros?

Talvez o encontro fosse um não-sei-quê de arrepios tortos

um diz-que-diz de delicadeza 

uma leveza primaveril que canta com o vento 

abrindo luminosos sorrisos que colorem savanas, botam brilho e leveza nos dias quentes e enfadonhos.

Mas o desencontro tolhe o sol

despenca pétalas, 

amarra a garganta num gosto amargo de solicitude que desintegra até mesmo um romance de Bergman.

E a roda viva bela e indomável segue seu curso

desencontrado

tramando o próximo golpe de leveza pueril que acalentará sôfregos devaneios.

Insonia, (que me come
que me sussurra nomes ao ouvido
ora vulgares, ora desejáveis),
que sigas manchando de sangue meus sonhos, devastando o que é criação
Sono meu
atrasa-te para que eles me arrastem mais fundo em meus devaneios

Insonia, (que me come

que me sussurra nomes ao ouvido

ora vulgares, ora desejáveis),

que sigas manchando de sangue meus sonhos, devastando o que é criação

Sono meu

atrasa-te para que eles me arrastem mais fundo em meus devaneios

Os cinco - capítulo do despertar; Gaia

Dia estranho, dia cinza.

Acordou um tanto atordoada. Levantou-se, sentou-se à mesa para tomar seu café amargo. Comeu, com culpa, aquele pão amanhecido.

Lembrou-se que era domingo, não precisava estar acordada àquela hora. Voltou a seu quarto e deitou-se. Mas desta vez não conseguia dormir. Subitamente vieram-lhe imagens estranhas à mente: árvores densas e gigantescas, flores multicoloridas e translúcidas, sons de cantos de pássaros hipnotizantes e luzes intensas dançando, a alcançá-la. Havia sonhado?

Havia dormido?

Havia lá estado?

Era. Simplesmente era.

Já não identificava a diferença entre a mata de cores majestosas e sons misteriosos e o conforto de seu colchão.

A escuridão de seu quarto tornara-se a própria luz do sol.

Mas ela não se via, não se ouvia, não se tocava. Podia apenas sentir-se ali. Ser ali.

De súbito, devaneios invadiram-lhe a áurea e aquele verde intensificou-se. Abriu a boca como que tentando encontrar palavras para retomar o controle de sua realidade; ouviu-se, porém, e era o som do canto de um pássaro que vibrava por suas cordas vocais. Abriu os olhos, mas a luminosidade intensa do Sol posto no meio do céu não permitia que enxergasse.   

“Lembro-me de tomar café e voltar a dormir, lembro-me vagamente de olhar-me no espelho.”

Levantou-se. O quarto agora era a própria mata. O natural que emana de cada indivíduo, o natural ignorado há séculos por esta espécie.

Olhou-se. Era água.

Agora, deixou ir a confusão e retomou os sentidos incomunicáveis. Viu-se, em meio à efusão de cores, transportada para dentro de cada célula que ainda habitava seu corpo físico. Moveu-se lentamente, atentando para a doce voz que sussurrava:

“Quem tem medo de mostrar-se vive no material.”

Não-matéria, agora, Gaia é.

∞Sonhos lúcidos escorrendo tinta branca pelas frestas ausentes entre ornamentos e vazios.- Acenda a luz, por favor.- Bom dia.Sonhos lúcidos escorrendo tinta branca pelas frestas ausentes entre ornamentos e vazios.- Acenda a luz, por favor.- Bom dia.Sonhos lúcidos escorrendo tinta branca pelas frestas ausentes entre ornamentos e vazios.- Acenda a luz, por favor.- Bom dia.Sonhos lúcidos escorrendo tinta branca pelas frestas ausentes entre ornamentos e vazios.- Acenda a luz, por favor.- Bom dia.∞



Sonhos lúcidos escorrendo tinta branca pelas frestas ausentes entre ornamentos e vazios.

- Acenda a luz, por favor.
- Bom dia.

Sonhos lúcidos escorrendo tinta branca pelas frestas ausentes entre ornamentos e vazios.

- Acenda a luz, por favor.
- Bom dia.

Sonhos lúcidos escorrendo tinta branca pelas frestas ausentes entre ornamentos e vazios.

- Acenda a luz, por favor.
- Bom dia.

Sonhos lúcidos escorrendo tinta branca pelas frestas ausentes entre ornamentos e vazios.

- Acenda a luz, por favor.
- Bom dia.

In[cômodos]

- Ó, vai-te daqui, minha pobre alma se enoja de teu vocabulário chulo.

- Mas não te enojas de teu paladar ao sentir o esporro quente adentrando tua garganta estreita.

- Não, porque destes ninguém sabe. Enojam-me tuas palavras sentidas atiradas em minha face mascarada. Enojam-me teus dedos grandes abaixados enquanto os meus te apontam. Possui-me o asco quando olho tua cara lívida dizendo-me o quanto arde em teu nariz meu cheiro de puta.

- Em mim não arde, esmaece. Cegas-te para ti mesma em detrimento de uma visão que não é tua, que te foi dada e por ti complacentemente aceita e acatada. Recebes o que não é verdadeiro com a mesma alegria de quando te entra a rija madeira goela adentro.

Sobes em tua apimentada carne e dela mesma te alimentas.

O medo de amar

Posto aqui somente textos de minha autoria. Porém, abrirei agora uma concessão. Beto Guedes feriu almas e elevou consciências ao escrever esta canção:

O medo de amar é o medo de ser
Livre para o que der e vier
Livre para sempre estar onde o justo estiver

O medo de amar é o medo de ter
De a todo momento escolher
Com acerto e precisão a melhor direção

O sol levantou mais cedo e quis
Em nossa casa fechada entrar pra ficar

O medo de amar é não arriscar
Esperando que façam por nós
O que é nosso dever: recusar o poder

O sol levantou mais cedo e cegou
O medo nos olhos de quem foi ver
Tanta luz

O amor é escasso. Descartável. Trocam-no como moedas a todo momento. As pessoas mudas da sala de jantar mudam de ideia a cada colherada da gosma que engolem. Não há interesse em aprofundar-se, não há interesse em conhecer, não há interesse em construir. Não há, ao menos, honestidade.

Ser sincero é muito simples, é como gritar; qualquer um pode gritar. Qualquer um pode ser sincero. A sinceridade é determinada pelo momento da ação; naquele momento, pontual, houve sinceridade. Já a honestidade está ligada a outro tipo de alarme interno: ao do caráter. A honestidade anda de mãos dadas com o respeito que se deve a qualquer outro indivíduo, de qualquer espécie. Questiono-me se há alguma raça honesta que possa ensinar a nós, humanos, que a partir do momento que a interação existe ou ela é findada ou estes ciclos abertos vão deixando energias soltas para trás. Energias que não são recuperadas, que simplesmente se perdem. Não são nem mesmo vertidas em outras, pois foram brutalmente interrompidas sem que se concluísse seu curso.

A conclusão não depende de finais bons ou ruins. A conclusão de cada ciclo de energia está na consciência deste. Se há a consciência de que está concluído, ótimo, está concluído. Justamente aí que se instala a desonestidade. As consciências de diferentes indivíduos funcionam de maneiras diferentes. Para determinado indivíduo a interação concluiu-se, porém, o ato de não comunicar este fato ao(s) outro(s) indivíduos envolvidos na mesma interação, faz com que estes, inocentes da consciência do primeiro, mantenham seus ciclos abertos, esperando conectar-se àquela energia que já deixou o ciclo, no entanto, não poderão encontrar suas próprias forças, ao menos por algum tempo (até que tomem consciência de que as energias de determinado membro da interação fecharam seu ciclo e, então, possam trabalhar para que suas próprias energias façam o mesmo), pois o ciclo está quebrado. Acredito que este é um dos motivos pelo qual todos concordamos que a comunicação é falha.

Na realidade, nossa comunicação não é falha, muitos de nós é que são covardes o bastante para utilizá-la.

Fazer o que se deseja (enovelados desejos!) ou fazer o que se acredita que deve ser feito?

Se a via é de mão dupla, como saber?

E se é de mão única, quais as chances de ir para a esquerda pensando que é direita?

Aqui não há oráculos, nem Morpheus para me oferecer uma pílula…

…nem Harvey Dent com sua moeda. Nenhum amuleto. Já não restam sonhos, ou estão guardados tão secretamente, autossuficientes, protegendo-se do turbilhão de mensagens conscientes agora levadas a cabo por certezas imputadas às sensações.

Meus conscientes se assaltam. Mas espere, há a consciência das sensações e há a consciência do (ir)real. O que fazer com tanta racionalidade?

A ignorância é mesmo uma bênção.

Quero agora que meus pés deixem de tocar o chão, que sejam conduzidos pelo gosto de fruta mordida, ainda que em invenção, só para me distrair.

Passivos e impassíveis continuamos mastigando nossas próprias estrias e entranhas.
Com gosto tálido e não real, imaginamos faces inexistentes face a minha esquizofrenia.
Sumo com eles, com todos eles, e com as vozes doces e agudas que me gritam e cantam: “Solte-nos!”
Servis à fome e à ânsia. Sondando os sonhos de semicerrados cérebros-coração. 
Há imagens se tornando moscas barulhentas aqui. Ali também. 
Não espere.
Ou sente-se, amigável passageiro. Silencie e assista a rêverie.

Passivos e impassíveis continuamos mastigando nossas próprias estrias e entranhas.

Com gosto tálido e não real, imaginamos faces inexistentes face a minha esquizofrenia.

Sumo com eles, com todos eles, e com as vozes doces e agudas que me gritam e cantam: “Solte-nos!”

Servis à fome e à ânsia. Sondando os sonhos de semicerrados cérebros-coração. 

Há imagens se tornando moscas barulhentas aqui. Ali também. 

Não espere.

Ou sente-se, amigável passageiro. Silencie e assista a rêverie.